O descaso da Itaguarana com seus funcionários e ex-funcionários

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pro quimica

Meses de salários irregulares e atrasados. Empréstimos, juros em cima de juros. Funcionários da ITAGUARANA S/A estão em desespero total. Poderia ser o Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul ou outros estados em crise financeira, mas o caso crítico neste momento vem da Bahia, mas propriamente da cidade de Ituaçu.
A fábrica dispensou funcionários com mais de 20 anos de serviços prestados. Diversas reuniões ocorreram entre a empresa e o sindicato que representa os funcionários da fábrica, porém todos os acordos firmados não foram cumpridos pelo grupo. A mais recente negociação de um acordo para o pagamento dos salários foi firmado perante o juiz para ser cumprido no dia 30 de Novembro de 2017.


Um funcionário que não pode ser identificado, está há 20 anos na fábrica escreveu um relato ao ItuAgora sobre seu atual momento na empresa. Mesmo quase se aposentando, ele está arrependido de um dia ter escolhido vestir farda.
Leia o relato do funcionário sobre seu atual momento na empresa:
Quando entrei no grupo há 20 anos, jamais imaginaria que eu e meus colegas iríamos passar o que estamos vivenciando agora.
Estou com os salários, PL, Décimo Terceiro em atraso há quase dois anos, alguns que ganham um pouco mais do que eu estão no mesmo barco. Atrasos que já vêm se prolongando há cerca de 23 meses. Sempre fui um cara altamente controlado com dinheiro, o pouco que ganho sempre deu, na medida do possível, para que eu suprisse as minhas necessidades e as da minha família. A situação dos funcionários sem salário não parece ser o centro da situação, tanto, que foi concedida uma liminar judicial que da mais prazo para empresa resolver a situação dos funcionários, em vez de determinar o pagamento dos atrasados e a regularização das condições de trabalho, a justiça demonstra uma grande irresponsabilidade com os pais de família que estão em situação de total desespero.
Com tantos atrasos, eu, que sempre paguei em dia as minhas contas, hoje me encontro devendo o cheque especial, juros em cima de juros dos cartões de crédito, empréstimos, mercadinho do bairro, escola dos meus filhos, prestação da casa, carro e por aí vai. Semana passada, venceu o boleto do consórcio que pago com muito esforço e suor para, um dia, comprar meu automóvel próprio. Todo mundo sabe que depender de ônibus ou qualquer meio de transporte público hoje, tendo filhos pequenos que muitas vezes adoece, é se expor a uma situação muito perigosa.
Esses constantes atrasos estão criando um abalo emocional muito grande, me sinto desprezado pela empresa e pela justiça que nada faz pelos trabalhadores, cada dia que passa vejo a justiça do trabalho aliviar a “barra” dando liminar judicial para um grupo bilionário. Me sinto impotente frente às situações financeiras que passo porque não me resta mais nada a fazer, muitas vezes me sinto um lixo.
Vou confessar algo que me aconteceu há alguns dias e, quando me lembro, meus olhos se enchem de lágrimas.
Eu tenho um filho que mora em outro estado. Ano passado, eu fiz uma promessa a ele: disse que o traria no final de 2017 para passar os meses de férias comigo. Agora, em janeiro, já faz três anos que não o vejo a não ser por fotos ou ligações. Meu filho já é um adolescente, sinto que precisa do pai junto para um conselho, uma conversa. Essa semana, por causa da falta de pagamento do meu salário, tive que ligar para o meu filho e tentar explicar que iria quebrar a promessa que tinha feito a ele porque não tinha dinheiro nem para me alimentar, quanto mais para custear sua vinda para minha casa.
Durante a conversa, pude sentir seu tom de voz mudar. Percebi o quanto ele ficou decepcionado comigo como pai. Na hora, me bateu uma dor tão grande que eu me arrependi de abraçar a carreira tão fielmente e estar passando por uma situação desesperadora. Até fiz um pequeno texto e enviei para uns amigos, mais ou menos assim: ‘Hoje eu sei que falhei com minha família por dedicar toda uma vida de trabalho digno e não poder sustentá-la.’
Eu disse essas palavras com tanta dor no coração! Em 20 anos de dedicação ao grupo, foi a primeira vez na vida que eu me arrependi de fazer parte. Será que dá pra imaginar o quanto isso dói? Só eu sei o quanto isso está me custando psicologicamente.
Recentemente, minha filha passou numa universidade pública, essa notícia era para ser comemorada, por ser motivo de festa e de muitas alegrias, mas na hora que caiu a ficha, me bateu um desespero, me vieram perguntas: como é que eu vou ajuda-la a chegar ao local do curso se eu não tenho o dinheiro da passagem? Como é que ela vai frequentar o curso, se há três ou quatro anos eu não recebo aumento correspondente à inflação, PL e tantos outros direitos que foram negligenciados por essa empresa. Vejo-me sem ter como alimentar minha própria filha durante o período da faculdade além de ajuda-la a adquirir os equipamentos necessários para desenvolver sua atividade.
A minha família, que era para estar alegre, vislumbrando futuras ascensões, está cabisbaixa, com pouquíssimas palavras ditas, todos estão com a cabeça não se sabe onde. Não é fácil ver um homem feito chorar de desespero ao narrar à falta de pão em sua residência.
Como pode um pai de família pode sair para trabalhar de barriga vazia, meu Deus? Onde vamos parar?
A empresa nem a justiça do trabalho se preocupam que eu e outros funcionários já estamos depressivos tendo que carregar tantos problemas sem ter a menor culpa.
Ontem mesmo, outro colega de outro estado tentou se matar após a esposa ligar para ele chorando e dizendo que estava com fome. Eu fico me perguntando como podemos sair de nossas casas para trabalhar sem a menor condição digna de trabalho e o mais importante, os nossos salários. Se eu fosse explicar, daria um livro.
Eu ouço, todos os dias, amigos ex-funcionários e colegas dizendo ‘eu estou passando fome’. Como pode um funcionário sair para trabalhar de barriga vazia, meu Deus? Onde vamos parar?
Eu estou escrevendo esse texto, e minhas lágrimas estão rolando pelas teclas do teclado deste computador. Já não sei o que faço para sanar essa situação, não recebo meu salário, não posso fazer bico, e aí? O que é que eu vou fazer para comer e pagar minhas contas?
Este foi apenas um relato sobre as dificuldades que ex-funcionários da empresa estão passando neste momento, são histórias diferentes marcadas pela decepção de um dia ter acreditado que a empresa que lhes garantiria um futuro seguro, hoje é a mesma que lhes causa preocupação.